quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Anilhamento do viver!

Amanheço acordado.Dentro do meu peito tua ausência é uma criança que não consigo fazer adormecer. Desfila perante minha insônia todos os momentos adocicados que vivemos. Na extensão inexata de minha pele, teu vulto me queima, todos meus poros em chama, meu corpo te clama. Teu cheiro é um incenso que se esparrama pelos vãos, desvãos e reentrâncias do meu ser. Cmo lidar com este hiato de você? Como não despencar do abismo que em minha frágil alma tua falta deixou? Tua lembrança são piercings atarraxados em minha memória. O contorno de teu rosto é vidro de mercúrio derramado sobre a capilaridade de meus pensamentos. Aos poucos me enveneno de saudade e de dores. Esta presença implacável da ausência, este anilhamento do viver, chamo saudade. Eu des-respiro, eu me ardo, eu me findo em tua lembrança!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Manhãs de outubro!

A janela entreaberta oferecia o aconchego da sombra aos raios solares das manhãs de outubro!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O rádio antigo e as manhãs (Lembranças do quintal da minha avó!)

Era um rádio a pilha e que tinha na frente somente dois botões: o de sintonizar e outro que aumentava ou diminuía o volume. Sua caixa protetora era de madeira e pintada de cor amarelo. As laterais era ligeiramente abauladas. Uma antena de tamanho médio parecia nascer de sua cabeça. Durante o dia só conseguíamos sintonizar a rádio de nossa cidade; á noite, com muito custo, meu avô conseguia ouvir o “Zé Béti”, um locutor de estação de rádio de São Paulo, acho que da rádio Nacional ou Bandeirantes. As crianças, como eu, deviam manter distância do rádio. Podia estragar o “apareiú”!
Em dias de chuvas com trovoadas, raios e relâmpagos, o rádio era desligado. Todo mundo sabia que a antena do rádio podia atrair o raio pra dentro da casa da gente e fazer incendiar tudo. Nesses dias de chuva brava a gente desligava o rádio e também cobria os espelhos. Confesso que até hoje eu não sei bem porquê cobria-se os espelhos.
Outra verdade, sabida por todos, era que tomando café quente era expressamente proibido de sair na chuva. Minha avó tinha conhecido alguém que tinha feito isso e tinha ficado todo torto. Ninguém queria ficar torto e nem morrer queimado ouvindo rádio. Lembro também que em dia de chuva uma das janelas devia ficar aberta: se o raio entrasse na casa, ele ia ter por onde sair(??!!!). Deixando as crendices sobre a chuva de lado, o rádio era um objeto muito apreciado, pois além da diversão ele também trazia as notícias. Muita gente que sabia escrever redigia uma cartinha pedindo para o locutor tocar sua música preferida, pedia para oferecer essa música para alguém que ele ou ela gostava. Depois “punha” a cartinha dentro de um envelope, botava o nome do programa na frente e levava na caixa de cartinhas que havia na estação de rádio. Outros através das cartinhas mandavam recados para o pessoal que morava nos sítios ou nas fazendas!
No outro dia o locutor lia em seu programa a carta da gente!
“___Fulano oferece com muito carinho a próxima música pra sicrana!”
Quando ouvíamos o nome da gente no rádio dava um orgulho danado! O rádio era tão famoso e ouvindo o nome da gente através dele, parecia que íamos absorver um pouco de sucesso. O rádio até parecia gente. A primeira e a última conversa do dia era dele.

“___Bom dia minha patroa! Agora em Três Lagoas são pontualmente cinco horas da manhã! É hora de acordar meu povo!”

(Música)
“ ...eu não troco meu ranchinho amarradinho de cipó
por uma casa na cidade nem que seja bangalô...”

Depois um cheiro de café novinho invadia a casa inteira. “____Menino tá na hora de acordar!”
Era a voz da minha avó me chamando para despertar.

“Não há oh gente oh não luar como esse do sertão..”

Eu acordava bocejando e espreguiçava para espantar a “lezeira” do corpo.
Ritual de todos os dias: lavar o rosto, pentear o cabelo, vestir o uniforme, calçar os sapatos, arrumar os cadernos.

“___Alô Seu João Quintanilha, da fazenda Olho dágua, a Dona Maria pede para esperar com o cavalo na porteira que ela está indo amanhã cedo”
“___Dona Joana, da fazenda PrataTiberi, a sua filha manda avisar que o seu neto já nasceu e que está tudo bem!”
“____Temos mais um recadinho aqui! É da Dirce, pro sítio Campanário! A Dona Dirce manda avisar que ela só poderá ir na segunda. Pro “ceis” não ficar preocupado que está tudo bem!”

(Música)
“ O maior golpe do mundo que eu tive em minha vida
Foi quando aos nove anos perdi minha mãe querida
Morreu queimada no fogo morte triste e dolorida....”

A xícara de café quentinha, fumegante já esperava á mesa.

“Levantei-me um dia bem cedo pra ver lá na praia minha namorada
Eu cheguei quando o sol já nascia só vi seu rastinho na areia molhada...”


O pão tipo bengala esticado solenemente á mesa era cortado em pedaços pequenos, lambuzado com manteiga era apreciado com a fome típica de quem acabara de levantar.

Eu: “ Vó tem leite pra misturar no café?”

“O João-de-barro pra ser feliz como eu certo dia resolveu arrumar uma companheira
Com o vai e vem com o barro da biquinha ele fez sua casinha lá no alto da paineira...”

“_____Agora em Três Lagoas, são seis horas e quinze minutos!”

Minha avó: “___Menino se apressa se não vai chegar atrasado!”

“Já derrubamos o mato meus amigos e camaradas
Já posso pagar vocês terminou a derrubada...........”

Eu: “___Vó já to indo! Bença vó!”

“____Deus te abençoe, Deus te dê boa sorte!” Respondia ela lavando a louça suja do café .
Eu sabia que depois de lavada a louça ela catar feijão pra cozinhar pro almoço.

Lá do portão ainda dava pra ouvir o rádio anunciando:

“Em Três Lagoas, são seis horas e trinta minutos!”

Horário certo de sair pra escola. Dava tempo de chegar, conversar um pouquinho com os colegas e depois ir pra fila cantar o hino antes de entrar pra sala de aula!
Até hoje lembro do rádio, lembro das manhãs, lembro das músicas! Que saudade!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Somente pra você meu inesquecível amor!

Trago em um um bornal dentro do coração:

Um par de brincos com brilhantes de alegrias
Um frasco pequeno com perfume de saudades
Um par de luvas forrada de abraços delicados
Um estojo de maquiagem repleto de ternuras
Trago um porta-joias com de cancoes de ninar

Levo um vestido feito á mão com a água da chuva
Levo uma escova de cabelo manufaturada de brisa
Trago estrelas embrulhadas em papel de bala doce
Beijos quentes guardados em potes de chocolate
Um sapato tingido com a cor do céu de primavera

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A máquina de cortar cabelo (Lembranças do quintal da minha avó!)

O corte de cabelo era feito ao menos uma vez a cada dois meses. Determinação do meu pai, com a amizade e a gratuidade do corte concedido por seu ‘Osvaldo”, o barbeiro.
Como eram muito amigos, seu ‘Osvaldo” não tinha a coragem de cobrar esse serviço do meu pai. Como era um gesto de amizade, essa gentileza quase sempre era realizada aos finais de semana. No início da semana, recebíamos a notícia de que no sábado íamos cortar o cabelo. A nova era dada antecipadamente para que não sumíssemos pelo mundo atrás de uma “pelada” (jogo de futebol sem esquemas táticos ou funções de campo definidas!).
Levantávamos cedo e ficávamos ali pelo quintal, brincando e aguardando a hora do Seu Osvaldo chegar. Quase sempre essa hora era lá pela hora do almoço.
Lá vinha ele e meu pai. É necessário confessar que o Seu Osvaldo e o meu pai gostavam de tomar umas “biritas” juntos. Por isso quando vinham, geralmente vinham do bar. Meu pai pitando seu “inlargável” cigarrinho de palha e o Seu Osvaldo trazendo á mão a sua famosa maleta preta de barbeiro. Dentro da maleta, se bem me lembro, tinha a navalha, o pente, espumador de fazer barba, o sabão pra fazer a espuma, um vidro pequeno com álcool, uma toalha acetinada, dois espelhos médios e a máquina de cortar cabelo.
Meu pai pegava duas cadeira de madeira e uma toalha de banho. O lugar preferido era sob a sombra de uma das mangueiras existentes no quintal. Numa das cadeiras, o Seu Osvaldo colocava sua maleta aberta; na outra, a gente se assentava para ele dar início ao seu ofício. Ele então cobria o pescoço e a costa da gente com a toalha, pra não nos sujar com cabelo(?). Nunca entendi bem este ritual, pois o corte não era feito num salão e, sim no quintal da minha avó.
Eu nunca saberei dizer onde Seu Osvaldo aprendeu a profissão! Mas posso jurar que não deve ter sido em nenhuma escola de cabeleireiros! Imagino que deva ter sido com alguém próximo e de quem fora, algum dia, aprendiz.
Para o Seu Osvaldo existia apenas dois tipos de cortes de cabelo: o corte baixinho e o corte americano.
O primeiro consistia em aparar o cabelo bem baixinho, com ajuda de um pente e uma tesoura; e o corte “americano” Para esse tipo de corte, ele fazia uso de uma bacia e com um pincel ia “borrifando” água para que o cabelo ficasse ligeiramente molhado e facilitasse o seu trabalho. Depois ele desembaraçava o cabelo com a ajuda de um pente; depois ele ia prendendo pequenas porções de cabelo com os dedos indicador e o médio e, realizando o corte com a tesoura.
A medida de um corte desse tipo era a altura dos dedos indicador e médio do Seu Osvaldo.
Quando realizado dessa maneira o resultado era muito satisfatório. Quando o cliente pedia um corte mais baixinho que a altura de seus dedos, ele tinha que fazer uso do pente de maneira inclinada. Aí começava o problema, principalmente se ele já tinha bebido umas e outras! O tal “ caminho de rato” (um corte cheio de falhas devido ao manuseio errado da tesoura) era certo!”
Para mim e os meus irmãos só existia o corte “americano”, que basicamente, era rapar as laterais da cabeça, a ajuda de uma máquina de cortar cabelo, acionada manualmente. A “maquininha”, acredito eu, era feita de metal, de cor prata. Tinha uma cabeça arredondada,
que era aberta superiormente com uma chave de fenda para trocar as lâminas de aço, que conhecíamos somente como gillete. Na parte de baixo da “cabeça”, ela tinha vários “dentes”, que eram encarregados de levantar cabelo pra gillete fazer o seu trabalho. Conforme a altura de corte que o freguês queria esses “dentes” podiam ser substituídos, variando, em ordem decrescente, do três até o zero; sendo que o zero era o popular “careca”.
Do lado da “cabeça” da maquininha saiam lateralmente duas manetes, ou cabos, como queiram, com uma mola presa ao meio. Para ela trabalhar o Seu Osvaldo tinha empurra-la pra frente, abrindo e fechando a mão
Para que a tal “maquininha” funcionasse bem, bastava estar com “gillete” (lâminas de aço) novas. Conforme ele forçava as manetes pra dentro, a mola central forçava o movimento pra fora. Bastava ele ir empurrando a tal engenhoca sobre nosso couro cabeludo pro nosso cabelo pixaim ir se amontoando na toalha ou no chão. Finda essa verdadeira raspagem lateral, ele aparava nosso cabelo na parte de cima, fazendo uso dos dedos citados e da tesoura; depois fazia “pé do cabelo” ( acertar o corte de cabelo no início do pescoço deixando-o com a forma quadrada ou arredondada) com a ajuda de uma navalha . Diga-se de passagem que por conta de seu estado etílico, esse momento da navalha, era cheio de muita tensão. A gente não dava um pio enquanto ele não terminasse! O toque final era dado quando ele esfregava as mãos com álcool, deixando-as levemente úmidas e passava sobre nosso pescoço. Ele pedia então para segurarmos um espelho em frente aos nossos olhos e, com outro, ficava focando atrás da nossa nuca pra mostrar pra gente como o “pé do cabelo” tinha ficado legal (?). Simples, não é?
O pior é que muitas vezes não meu amigo!! O que a princípio, descrevendo, parecia ser simples, muitas vezes quando a tal “maquininha” estava cega de corte, não era! Após o segundo corte de cabelo, o simples se tornava o complexo.
A “maquininha” perdia o corte! A tal “maquininha” quando estava cega ao invés de cortar ela ia arrancando nosso cabelo. Quando acontecia isso, parecia que a danada não estava cortando nosso cabelo e, sim arrancando, aos puxões, o nosso couro cabeludo. Era um tal de fechar os olhos e chupar os dentes durante todo o processo! Seu Osvaldo, enquanto cortava o cabelo conversava animadamente com o meu pai e os dois nem se davam conta do sofrimento que estava sendo manualmente inflingido a nós, os pobrezinhos!
Éramos cinco: eu, o Alvimar, o Adilson, o Wilson e o Manoel! Quem ficasse por último estava condenado a ser quase escalpelado!
Quando fomos ficando maiores começamos a pedir para o meu pai deixar seu Osvaldo cortar nosso cabelo no estilo “baixinho”. Com muita insistência nossa e o advogar da minha mãe, felizmente para nós, ele concordou!
Sem dúvida era melhor ostentar “caminhos de ratos” na cabeça do que arriscar a ser literalmente escalpelado por uma máquina de cortar cabelo!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Eu mesmo!

Eu não caibo dentro de qualquer saudade
Que insista em me ter crucificado aos teus pés.
Eu não me enquadro em ângulos retos de amores
Não me deito em bancos macios de desejos
Onde a solidão primeiramente estendeu os seus lençóis
Não adentro as igrejas ortodoxas ou protestantes
Que apregoam a eternidade da paixão e do amor
Não ilumino a face perante as velas da tristeza
Que queimam solenes defronte ao altar do abandono
Eu não engulo as hóstias de desesperanças
E não bebo no meio da missa o cálice da decepção
Eu não vergo os joelhos sobre os tapetes desilusão
Eu não balbucio orações implorando o perdão
Não peço em preces a volta de um amor que já se foi
Não rumino lembranças vãs do desejo que se apagou
Eu não faço promessas para um bem querer voltar
Minha força é meu canto, minha fé a poesia
Pra toda tristeza e desencantos que resulta o amor
Eu mostro o lado forte da vida, eu trago a alegria
guardada na palma da mão.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A fazenda de um menino (Lembranças do quintal da minha avó!)

O quintal enorme foi fruto da labuta do meu avô, prestando serviços para a Noroeste do Brasil. Espalhado pelo quintal tinha pés de laranjas, pé de uva, limão, caju, carriola, cajamanga,coqueiros, umbu, banana, côco da bahia, pé de guaivira, mamão, abacate e manga. Manga tinha a manga coquinho, que era pequena e tão doce que parecia mel; a manga espada que os fiapos dela ficava enganchado nos dentes da gente e dava um trabalhão danado pra tirar, pois naqueles tempos, eu pelo menos, não conhecia o fio dental; a manga adem, que era grande, também doce e não tinha fiapos, por isso era a nossa preferida. Caju tinha do verde e do amarelo. Comíamos a polpa com bastante cuidado pois todo mundo sabia que se o sumo pingasse na roupa, manchava. A castanha do caju comíamos torrada. Um ou outro de nossos amigos até se atreveu a fazer tatuagem com o óleo da castanha do caju. Eu confesso que não me atrevi porque onde passavam o óleo sobre a figura desenhada na pele pra fazer a tatuagem, ficava um queimado feio pra caramba. O quintal era um universo de árvores frutíferas! Era em meio a esse monte de árvores que eu passava a maior parte do dia. A quantidade grande de árvores atraía também uma legião de passarinhos. Eles se aproveitavam das frutas que maduravam e demorava a ser colhida. Os sabiás, bem-te-vis e canarinhos amanheciam o dia antes de nós, fazendo cantilenas no terreiro e bicando vorazmente as frutas maduras que tinham vindo ao chão.Como eram muitas as árvores, eram muitas também as flores, por isso era um zunzum de abelhas que parecia que não ia acabar mais. Quando elas, as abelhas, estavam fazendo o seu trabalho a gente não brincava na copa das árvores. Medo de ser ferroado! Os beija-flores sempre davam o ar de sua graça, voando ligeiro e pairando em pleno ar enquanto beijavam graciosamente as flores. No chão as formigas faziam um eterno passeio , um ir e vir sem fim, onde sempre se cumprimentavam ao passar umas pelas outras. Além das árvores frutíferas a minha avó tinha á sua disposição no quintal um punhado de ervas: pé de fedegoso, de capim cidreira, pimentas, manjericão, boldro, erva santa-maria e outros. O quintal era um mundo habitado por plantas e ervas rasteiras e sombra que não acabava mais! Ás vezes, eu passava o dia brincando distraído debaixo da copa das árvores. Esquecia muitas vezes até o horário do almoço. Ficava ali absorto cuidando de minha fazenda. O meu gado era o resultado da combinação de mangas precocemente caídas, a haste da folha do coqueiro e muita imaginação.O primeiro passo era juntar as mangas que o vento tinha derrubado; depois eu tirava a hastezinha principal das folhas secas do coqueiro, quebrava em pequenos pedaços e com elas eu fazia as pernas do meu gado. Já, a cerca da minha fazenda era feita com palitos de picolés que eram trançados uns nos outros. Concebidos os bois e a cerca da fazenda a brincadeira consistia em apartar os bezerros, levá-los de uma fazenda pra outra, curar os que estavam machucados. Conduzir de um lugar pro outro era um trabalho danado porque tinha que ser feito de um a um, porque se eu empurrasse todos ao mesmo tempo, corria se o risco de quebrar as patas dos bichos. Era nessa brincadeiras que muitas vezes eu consumia docemente as manhãs! Esse devaneio era interrompido pelo grito da minha avó: "___Menino vem almoçar!" Eu acabava de ajeitar o gado na fazenda e ia almoçar! Terminada a refeição, quando voltava ao meu ofício de fazendeiro, não raras vezes, o lulu, um cãozinho de estimação, raça vira-lata, estava deitado sobre toda minha fazenda. Eu ralhava com ele, dando-lhe um chute no traseiro. Depois olhava desolado a minha fazenda destruída. O lulu, apesar de ser um cão, era uma espécie de sem-terra!