Minha avó sempre foi uma excelente vizinha, disseram em seu velório, todos aqueles que vizinharam com ela. O quanto ela assertiva já descrevi em outras crônicas!
Fato muito engraçado aconteceu quando minha avó vizinhou com a Dona "Maria Amarradeira" (Confesso que não sei a razão deste apelido!), mãe da Valter, da Vanda e da Vilma. Elas foram vizinhas em terrenos que ficavam defronte á "igrejinha" (Assim era chamada a igreja do bairro Nossa Senhora Aparecida, bairro este, na época, mais conhecido como "feijão queimado"). A filha mais nova de minha avó se chama Maria de Lourdes e no círculo familiar era chamda de " Lurdinha"; a filha mais nova da Dona Maria "Amarradeira", se chama Vilma.
Afora o preconceito e as piadas de mau gosto que dizem que um caminhão de preto ou um caminhão de japonês todo mundo é igual, certo é que as duas eram muito parecidas, ou como de diz no interior, "cara de uma, fucinho da outra"!
Como era costume a Lurdinha e Vilma, viviam uma na casa da outra pois eram amigas e comungavam a mesma faixa etária de idade.
Como toda criança, vez ou outra aprontavam peraltices.
Minha avó, ao que parece estava cozinhando e as duas "neguinhas" brincando de correr e passando toda hora dentro da cozinha. Minha avó pediu para elas evitarem a cozinha, no quê, diga-se de passagem, não foi prontamente e nem tardiamente atendida.
A brincadeira de corre-corre continou como se minha avó não existisse e também não tivesse falado nada. Nem a promessa de uma surra na Lurdinha foi capaz de alterar o trajeto que elas haviam estabelecido naquela manhã. Heis que ao passar pela cozinha em desabalada carreira, uma delas tromba na minha avó, que por pouco não derruba uma chaleira de água quente que tinha ás mãos. Minha avó não pensou duas vezes e correu de chinelo na mão atrás da Lurdinha. Alcançou-a quando ela ia dobrar a esquina da parede da casa. Segurou-a pela gola da blusa e deu-lhe umas boas chineladas. Quando minha avó deixou a criança e olhou de lado, sua filha, a Lurdinha a olhava com olhos esbugalhados e atônitos. A Vilminha, que tinha acabado de apanhar no lugar da amiga, correu num berreiro só para o quintal da sua casa.
Quando a minha avó se deu conta do que tinha acontecido, saiu correndo atrás e gritando:
" Ô comadre Maria "Amarradeira", me desculpe! Eu bati na sua filha pensando que era a minha"!
terça-feira, 13 de abril de 2010
O jeito único de ser da minha avó (Lembranças do quintal da minha avó!)
Minha avó era uma daquelas pessoas cuja conta pra viver era pensar e resolver a vida!
Tudo era simples como dois mais dois resultando em quatro! De espírito e pensamentos simples, uma pessoa honesta e cheia de bom humor e esperança! Minha avó era uma semeadora de alegrias. Sua risada cristalina enchia a varanda e chegava até a rua, sendo muito comum contagiar os transeuntes. Ela viveu sua vida acreditando sempre o amanhã sempre traria consigo um fato novo e seria bem melhor do que o hoje.
Uma passagem que retrata bem minha avó, o seu jeito único de ser e de viver a vida, aconteceu no episódio de sua morte; e me foi relatada por Dona Cacilda, uma pessoa amável e muito querida, com a qual minha avó vizinhou por mais de trinta anos.
Ela dizia: "___Nós vizinhamos tantos anos! A dona Luzia era uma pessoa que todos nós da rua admirávamos! Não tinha quem não gostasse da dona Luzia. Quantas e quantas vezes eu acordava cedo e estava varrendo a minha calçada e a Dona Luzia, a dela. Ela me dava bom dia, atravessava a rua e já vinha rindo prosear comigo! Outras vezes era eu que atravessava a rua e ela me esperava rindo para conversar. Uma dessas vezes, eu disse á Dona Luzia, que todos os vizinhos admiravam ela! Sempre rindo, sempre de bom astral, parecia pra ela que tudo sempre estava bom. Minha avó respondeu á Dona Cacilda que ela não sabia o que era DOENÇA, o que era SAUDADE, o que era TRISTEZA. A Dona Cacilda pediu para ela explicar melhor como era isso. "___Doença, Cacilda, eu sei e já vi nos outros, mas "ocê" sabe que eu não sei o que é dor de cabeça, dor de dente, ficar acamada; Saudade também não sei o que é! Meus filhos e meus netos estão todos sempre perto de mim. Vejo os outros falar mas não sinto!
Tristeza é outra coisa que eu desconheço. Que eu lembre quando minha mãe estava viva e muito velhinha, precisou vir morar comigo. Todos os dias eu acordava e levava uma caneca de café quentinho pra ela na beirada da cama. Certo dia quando cheguei ao quarto, com o café quentinho nas mãos, chamei minha mãe e ela não respondeu. Então vi que minha mãe tinha morrido! Me deu um aperto dentro do peito e um bolo cresceu na minha garganta!".
Então ela perguntou á Dona Cacilda: "__Será que isso é tristeza?"
Dona Cacilda respondeu: "__É sim, Dona Luzia! Isso é muita tristeza!"
Então a minha avó respondeu numa gargalhada pra ela: "___Ah, então eu já fiquei triste uma vez!"
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Tudo era simples como dois mais dois resultando em quatro! De espírito e pensamentos simples, uma pessoa honesta e cheia de bom humor e esperança! Minha avó era uma semeadora de alegrias. Sua risada cristalina enchia a varanda e chegava até a rua, sendo muito comum contagiar os transeuntes. Ela viveu sua vida acreditando sempre o amanhã sempre traria consigo um fato novo e seria bem melhor do que o hoje.
Uma passagem que retrata bem minha avó, o seu jeito único de ser e de viver a vida, aconteceu no episódio de sua morte; e me foi relatada por Dona Cacilda, uma pessoa amável e muito querida, com a qual minha avó vizinhou por mais de trinta anos.
Ela dizia: "___Nós vizinhamos tantos anos! A dona Luzia era uma pessoa que todos nós da rua admirávamos! Não tinha quem não gostasse da dona Luzia. Quantas e quantas vezes eu acordava cedo e estava varrendo a minha calçada e a Dona Luzia, a dela. Ela me dava bom dia, atravessava a rua e já vinha rindo prosear comigo! Outras vezes era eu que atravessava a rua e ela me esperava rindo para conversar. Uma dessas vezes, eu disse á Dona Luzia, que todos os vizinhos admiravam ela! Sempre rindo, sempre de bom astral, parecia pra ela que tudo sempre estava bom. Minha avó respondeu á Dona Cacilda que ela não sabia o que era DOENÇA, o que era SAUDADE, o que era TRISTEZA. A Dona Cacilda pediu para ela explicar melhor como era isso. "___Doença, Cacilda, eu sei e já vi nos outros, mas "ocê" sabe que eu não sei o que é dor de cabeça, dor de dente, ficar acamada; Saudade também não sei o que é! Meus filhos e meus netos estão todos sempre perto de mim. Vejo os outros falar mas não sinto!
Tristeza é outra coisa que eu desconheço. Que eu lembre quando minha mãe estava viva e muito velhinha, precisou vir morar comigo. Todos os dias eu acordava e levava uma caneca de café quentinho pra ela na beirada da cama. Certo dia quando cheguei ao quarto, com o café quentinho nas mãos, chamei minha mãe e ela não respondeu. Então vi que minha mãe tinha morrido! Me deu um aperto dentro do peito e um bolo cresceu na minha garganta!".
Então ela perguntou á Dona Cacilda: "__Será que isso é tristeza?"
Dona Cacilda respondeu: "__É sim, Dona Luzia! Isso é muita tristeza!"
Então a minha avó respondeu numa gargalhada pra ela: "___Ah, então eu já fiquei triste uma vez!"
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A torneira (Lembranças do quintal da minha avó!)
Sob o céu, a casa; ao fundo da casa, o caramanchão; sob o caramanchão, o tanque; na costa do tanque, a torneira.
“ Menino, não fique abrindo e fechando toda hora que você vai destrambelhar essa torneira!” Era a voz de minha avó admoestando-me quando estava brincando com água.
Ah, mas era tão bom abrir a torneira e deixar a água escorrer por entre os dedos. Era como se a mão estivesse tomando banho de cachoeira. Palma pra cima, palma pra baixo; e de vez em quando ia levando a mão adiante, até o cotovelo ficar sob o jato d’agua.
A água era captda de um córrego chamado Palmito. Ela era quente e serpenteava pela mangueira escondida dentro da terra, atravessava á galope o quintal e vinha recobrar o fôlego na torneira. Ssssssssssss! Quando o fecho da torneira era aberto ela chiava uns dez segundos antes de aparecer.
A torneira era de metal e, quando nova, tinha a cor que buscava imitar o ouro. Quando estava envelhecendo o amarelo ia ficando desbotado e acabava por descascar em alguns lugares.
Quando entrava nessa idade, a gente rodava a “borboletinha” para ela fechar, mas ela continuava pingando. Se a gente teimasse e quisesse estancar a lenta sangria d’agua, ela se aborrecia de vez e deixava-se ficar girando em voltas sem fim.
Danava-se tudo! Quando estava chateada assim, a gente tirava a mão de cima dela e ela voltava a vazar. Pra esse destempero da torneira somente um elástico bem forte ou uma tira de câmara de ar de bicicleta pra dar jeito.
A gente amarrava a torneira pra tirar o vazamento e ela ficava parecida com gente que tinha cachumba ; que botava um pano que passava pela fronte, dava a volta no queixo e terminava por ser amarrado num laço, em cima da cabeça.
“ Menino, não fique abrindo e fechando toda hora que você vai destrambelhar essa torneira!” Era a voz de minha avó admoestando-me quando estava brincando com água.
Ah, mas era tão bom abrir a torneira e deixar a água escorrer por entre os dedos. Era como se a mão estivesse tomando banho de cachoeira. Palma pra cima, palma pra baixo; e de vez em quando ia levando a mão adiante, até o cotovelo ficar sob o jato d’agua.
A água era captda de um córrego chamado Palmito. Ela era quente e serpenteava pela mangueira escondida dentro da terra, atravessava á galope o quintal e vinha recobrar o fôlego na torneira. Ssssssssssss! Quando o fecho da torneira era aberto ela chiava uns dez segundos antes de aparecer.
A torneira era de metal e, quando nova, tinha a cor que buscava imitar o ouro. Quando estava envelhecendo o amarelo ia ficando desbotado e acabava por descascar em alguns lugares.
Quando entrava nessa idade, a gente rodava a “borboletinha” para ela fechar, mas ela continuava pingando. Se a gente teimasse e quisesse estancar a lenta sangria d’agua, ela se aborrecia de vez e deixava-se ficar girando em voltas sem fim.
Danava-se tudo! Quando estava chateada assim, a gente tirava a mão de cima dela e ela voltava a vazar. Pra esse destempero da torneira somente um elástico bem forte ou uma tira de câmara de ar de bicicleta pra dar jeito.
A gente amarrava a torneira pra tirar o vazamento e ela ficava parecida com gente que tinha cachumba ; que botava um pano que passava pela fronte, dava a volta no queixo e terminava por ser amarrado num laço, em cima da cabeça.
A oficina de lavar roupa (Lembranças do quintal da minha avó!)
Eu não esqueço! Quem é da família e não é mais moço; o cabelo tem no todo ou numa parte, a cor do algodão, há de lembrar-se desse tempo! Como dia que amanhece a lembrança faz sol dentro de mim! O rio da memória é caudaloso e seus respingos quando alcança a cachoeira do tempo encharca de saudade o meu olhar! O tempo é um menino que brinca no quintal das minhas lembranças! No fio da teia da memória, o aumentado da casa ainda vai acontecer!
Ainda é a cozinha onde hoje é a sala de televisão! A porta da cozinha é de madeira e é tingida da cor do azul do céu. Ela se abre para o caramanchão. Quatro palanques fincados no chão, de altura e meia de um homem, dispostos num retângulo. Aos pés de cada um, uma videira foi plantada. O verde que mais tarde ia dar uvas, num enlace gentil e necessário, abraçou o poste para subir em direção ao alto e ir se esparramar sobre uma cama de arame, que docemente o meu avô teceu! Meu avô engenhou uma lavoura de palanques, plantas e arame para colher sombra o ano inteiro. Sob essa fruta gostosa que se aproveita para esconder o sol e amainar o calor dos dias de verão, o meu avô semeou o tanque; ao lado dele, edificou o quarador.
O quarador era uma prancha de madeira de lei onde uma das pontas ficava sustentada num poste de meio metro de altura e a outra ponta ia ao chão. Era ali que minha avó alvejava as roupas para o trabalho e as missas do domingo! O caramanchão, o tanque e o quarador!
Era ali a nossa oficina de lavar roupas!
Ainda é a cozinha onde hoje é a sala de televisão! A porta da cozinha é de madeira e é tingida da cor do azul do céu. Ela se abre para o caramanchão. Quatro palanques fincados no chão, de altura e meia de um homem, dispostos num retângulo. Aos pés de cada um, uma videira foi plantada. O verde que mais tarde ia dar uvas, num enlace gentil e necessário, abraçou o poste para subir em direção ao alto e ir se esparramar sobre uma cama de arame, que docemente o meu avô teceu! Meu avô engenhou uma lavoura de palanques, plantas e arame para colher sombra o ano inteiro. Sob essa fruta gostosa que se aproveita para esconder o sol e amainar o calor dos dias de verão, o meu avô semeou o tanque; ao lado dele, edificou o quarador.
O quarador era uma prancha de madeira de lei onde uma das pontas ficava sustentada num poste de meio metro de altura e a outra ponta ia ao chão. Era ali que minha avó alvejava as roupas para o trabalho e as missas do domingo! O caramanchão, o tanque e o quarador!
Era ali a nossa oficina de lavar roupas!
Des-lucidez
Quero estar e vencer o tempo e a distância
Beber ventos e tempestades que se avizinham
Voar abismos e montanhas que me cercam
Entranhar ausências, saudades que me rondam
Nadar os mil e um rios que me convergem
Afrontar os mares que se horizontam
Descerrar de súbito as janelas dos olhos
Pavilhões de amor eternamente fechados
E num mergulho inequívoco
Na imensidão uterina da palavra
Cometer premeditadamente
Sem remorsos prematuros
Um verso de esperança na aridez do pensamento
E depois doar o peito ao farpado do arame
Então dilacerar com as mãs essa ferida viva
Até ser larga o bastante para ver pulsar
No compasso lento do relógio de parede
Desvairado e vermelho
Meu patético coração de homem
Beber ventos e tempestades que se avizinham
Voar abismos e montanhas que me cercam
Entranhar ausências, saudades que me rondam
Nadar os mil e um rios que me convergem
Afrontar os mares que se horizontam
Descerrar de súbito as janelas dos olhos
Pavilhões de amor eternamente fechados
E num mergulho inequívoco
Na imensidão uterina da palavra
Cometer premeditadamente
Sem remorsos prematuros
Um verso de esperança na aridez do pensamento
E depois doar o peito ao farpado do arame
Então dilacerar com as mãs essa ferida viva
Até ser larga o bastante para ver pulsar
No compasso lento do relógio de parede
Desvairado e vermelho
Meu patético coração de homem
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Rio da memória
Os olhos fecho, nas águas muitas do rio da memória, vejo
Á deriva no leito uma infinidade de desejos insatisfeitos
Orgasmos fingidos se afogam abraçados a beijos alheios
Remam inconsoláveis os fantasmas de amores-perfeitos
Dependurados á margem da lâmina dágua de horrores
Samambaias abarrotadas de tristezas e avencas de dores
Nas águas muitas que correm o rio da memória
Navegam sem amarras o abandono e a solidão
Á deriva no leito uma infinidade de desejos insatisfeitos
Orgasmos fingidos se afogam abraçados a beijos alheios
Remam inconsoláveis os fantasmas de amores-perfeitos
Dependurados á margem da lâmina dágua de horrores
Samambaias abarrotadas de tristezas e avencas de dores
Nas águas muitas que correm o rio da memória
Navegam sem amarras o abandono e a solidão
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