segunda-feira, 3 de maio de 2010

A fazenda de um menino (Lembranças do quintal da minha avó!)

O quintal enorme foi fruto da labuta do meu avô, prestando serviços para a Noroeste do Brasil. Espalhado pelo quintal tinha pés de laranjas, pé de uva, limão, caju, carriola, cajamanga,coqueiros, umbu, banana, côco da bahia, pé de guaivira, mamão, abacate e manga. Manga tinha a manga coquinho, que era pequena e tão doce que parecia mel; a manga espada que os fiapos dela ficava enganchado nos dentes da gente e dava um trabalhão danado pra tirar, pois naqueles tempos, eu pelo menos, não conhecia o fio dental; a manga adem, que era grande, também doce e não tinha fiapos, por isso era a nossa preferida. Caju tinha do verde e do amarelo. Comíamos a polpa com bastante cuidado pois todo mundo sabia que se o sumo pingasse na roupa, manchava. A castanha do caju comíamos torrada. Um ou outro de nossos amigos até se atreveu a fazer tatuagem com o óleo da castanha do caju. Eu confesso que não me atrevi porque onde passavam o óleo sobre a figura desenhada na pele pra fazer a tatuagem, ficava um queimado feio pra caramba. O quintal era um universo de árvores frutíferas! Era em meio a esse monte de árvores que eu passava a maior parte do dia. A quantidade grande de árvores atraía também uma legião de passarinhos. Eles se aproveitavam das frutas que maduravam e demorava a ser colhida. Os sabiás, bem-te-vis e canarinhos amanheciam o dia antes de nós, fazendo cantilenas no terreiro e bicando vorazmente as frutas maduras que tinham vindo ao chão.Como eram muitas as árvores, eram muitas também as flores, por isso era um zunzum de abelhas que parecia que não ia acabar mais. Quando elas, as abelhas, estavam fazendo o seu trabalho a gente não brincava na copa das árvores. Medo de ser ferroado! Os beija-flores sempre davam o ar de sua graça, voando ligeiro e pairando em pleno ar enquanto beijavam graciosamente as flores. No chão as formigas faziam um eterno passeio , um ir e vir sem fim, onde sempre se cumprimentavam ao passar umas pelas outras. Além das árvores frutíferas a minha avó tinha á sua disposição no quintal um punhado de ervas: pé de fedegoso, de capim cidreira, pimentas, manjericão, boldro, erva santa-maria e outros. O quintal era um mundo habitado por plantas e ervas rasteiras e sombra que não acabava mais! Ás vezes, eu passava o dia brincando distraído debaixo da copa das árvores. Esquecia muitas vezes até o horário do almoço. Ficava ali absorto cuidando de minha fazenda. O meu gado era o resultado da combinação de mangas precocemente caídas, a haste da folha do coqueiro e muita imaginação.O primeiro passo era juntar as mangas que o vento tinha derrubado; depois eu tirava a hastezinha principal das folhas secas do coqueiro, quebrava em pequenos pedaços e com elas eu fazia as pernas do meu gado. Já, a cerca da minha fazenda era feita com palitos de picolés que eram trançados uns nos outros. Concebidos os bois e a cerca da fazenda a brincadeira consistia em apartar os bezerros, levá-los de uma fazenda pra outra, curar os que estavam machucados. Conduzir de um lugar pro outro era um trabalho danado porque tinha que ser feito de um a um, porque se eu empurrasse todos ao mesmo tempo, corria se o risco de quebrar as patas dos bichos. Era nessa brincadeiras que muitas vezes eu consumia docemente as manhãs! Esse devaneio era interrompido pelo grito da minha avó: "___Menino vem almoçar!" Eu acabava de ajeitar o gado na fazenda e ia almoçar! Terminada a refeição, quando voltava ao meu ofício de fazendeiro, não raras vezes, o lulu, um cãozinho de estimação, raça vira-lata, estava deitado sobre toda minha fazenda. Eu ralhava com ele, dando-lhe um chute no traseiro. Depois olhava desolado a minha fazenda destruída. O lulu, apesar de ser um cão, era uma espécie de sem-terra!

terça-feira, 13 de abril de 2010

"Cara de uma, fucinho da outra" (Lembrança do quintal da minha avó!)

Minha avó sempre foi uma excelente vizinha, disseram em seu velório, todos aqueles que vizinharam com ela. O quanto ela assertiva já descrevi em outras crônicas!
Fato muito engraçado aconteceu quando minha avó vizinhou com a Dona "Maria Amarradeira" (Confesso que não sei a razão deste apelido!), mãe da Valter, da Vanda e da Vilma. Elas foram vizinhas em terrenos que ficavam defronte á "igrejinha" (Assim era chamada a igreja do bairro Nossa Senhora Aparecida, bairro este, na época, mais conhecido como "feijão queimado"). A filha mais nova de minha avó se chama Maria de Lourdes e no círculo familiar era chamda de " Lurdinha"; a filha mais nova da Dona Maria "Amarradeira", se chama Vilma.
Afora o preconceito e as piadas de mau gosto que dizem que um caminhão de preto ou um caminhão de japonês todo mundo é igual, certo é que as duas eram muito parecidas, ou como de diz no interior, "cara de uma, fucinho da outra"!
Como era costume a Lurdinha e Vilma, viviam uma na casa da outra pois eram amigas e comungavam a mesma faixa etária de idade.
Como toda criança, vez ou outra aprontavam peraltices.
Minha avó, ao que parece estava cozinhando e as duas "neguinhas" brincando de correr e passando toda hora dentro da cozinha. Minha avó pediu para elas evitarem a cozinha, no quê, diga-se de passagem, não foi prontamente e nem tardiamente atendida.
A brincadeira de corre-corre continou como se minha avó não existisse e também não tivesse falado nada. Nem a promessa de uma surra na Lurdinha foi capaz de alterar o trajeto que elas haviam estabelecido naquela manhã. Heis que ao passar pela cozinha em desabalada carreira, uma delas tromba na minha avó, que por pouco não derruba uma chaleira de água quente que tinha ás mãos. Minha avó não pensou duas vezes e correu de chinelo na mão atrás da Lurdinha. Alcançou-a quando ela ia dobrar a esquina da parede da casa. Segurou-a pela gola da blusa e deu-lhe umas boas chineladas. Quando minha avó deixou a criança e olhou de lado, sua filha, a Lurdinha a olhava com olhos esbugalhados e atônitos. A Vilminha, que tinha acabado de apanhar no lugar da amiga, correu num berreiro só para o quintal da sua casa.
Quando a minha avó se deu conta do que tinha acontecido, saiu correndo atrás e gritando:
" Ô comadre Maria "Amarradeira", me desculpe! Eu bati na sua filha pensando que era a minha"!

O jeito único de ser da minha avó (Lembranças do quintal da minha avó!)

Minha avó era uma daquelas pessoas cuja conta pra viver era pensar e resolver a vida!
Tudo era simples como dois mais dois resultando em quatro! De espírito e pensamentos simples, uma pessoa honesta e cheia de bom humor e esperança! Minha avó era uma semeadora de alegrias. Sua risada cristalina enchia a varanda e chegava até a rua, sendo muito comum contagiar os transeuntes. Ela viveu sua vida acreditando sempre o amanhã sempre traria consigo um fato novo e seria bem melhor do que o hoje.
Uma passagem que retrata bem minha avó, o seu jeito único de ser e de viver a vida, aconteceu no episódio de sua morte; e me foi relatada por Dona Cacilda, uma pessoa amável e muito querida, com a qual minha avó vizinhou por mais de trinta anos.
Ela dizia: "___Nós vizinhamos tantos anos! A dona Luzia era uma pessoa que todos nós da rua admirávamos! Não tinha quem não gostasse da dona Luzia. Quantas e quantas vezes eu acordava cedo e estava varrendo a minha calçada e a Dona Luzia, a dela. Ela me dava bom dia, atravessava a rua e já vinha rindo prosear comigo! Outras vezes era eu que atravessava a rua e ela me esperava rindo para conversar. Uma dessas vezes, eu disse á Dona Luzia, que todos os vizinhos admiravam ela! Sempre rindo, sempre de bom astral, parecia pra ela que tudo sempre estava bom. Minha avó respondeu á Dona Cacilda que ela não sabia o que era DOENÇA, o que era SAUDADE, o que era TRISTEZA. A Dona Cacilda pediu para ela explicar melhor como era isso. "___Doença, Cacilda, eu sei e já vi nos outros, mas "ocê" sabe que eu não sei o que é dor de cabeça, dor de dente, ficar acamada; Saudade também não sei o que é! Meus filhos e meus netos estão todos sempre perto de mim. Vejo os outros falar mas não sinto!
Tristeza é outra coisa que eu desconheço. Que eu lembre quando minha mãe estava viva e muito velhinha, precisou vir morar comigo. Todos os dias eu acordava e levava uma caneca de café quentinho pra ela na beirada da cama. Certo dia quando cheguei ao quarto, com o café quentinho nas mãos, chamei minha mãe e ela não respondeu. Então vi que minha mãe tinha morrido! Me deu um aperto dentro do peito e um bolo cresceu na minha garganta!".
Então ela perguntou á Dona Cacilda: "__Será que isso é tristeza?"
Dona Cacilda respondeu: "__É sim, Dona Luzia! Isso é muita tristeza!"
Então a minha avó respondeu numa gargalhada pra ela: "___Ah, então eu já fiquei triste uma vez!"
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A torneira (Lembranças do quintal da minha avó!)

Sob o céu, a casa; ao fundo da casa, o caramanchão; sob o caramanchão, o tanque; na costa do tanque, a torneira.
“ Menino, não fique abrindo e fechando toda hora que você vai destrambelhar essa torneira!” Era a voz de minha avó admoestando-me quando estava brincando com água.
Ah, mas era tão bom abrir a torneira e deixar a água escorrer por entre os dedos. Era como se a mão estivesse tomando banho de cachoeira. Palma pra cima, palma pra baixo; e de vez em quando ia levando a mão adiante, até o cotovelo ficar sob o jato d’agua.
A água era captda de um córrego chamado Palmito. Ela era quente e serpenteava pela mangueira escondida dentro da terra, atravessava á galope o quintal e vinha recobrar o fôlego na torneira. Ssssssssssss! Quando o fecho da torneira era aberto ela chiava uns dez segundos antes de aparecer.
A torneira era de metal e, quando nova, tinha a cor que buscava imitar o ouro. Quando estava envelhecendo o amarelo ia ficando desbotado e acabava por descascar em alguns lugares.
Quando entrava nessa idade, a gente rodava a “borboletinha” para ela fechar, mas ela continuava pingando. Se a gente teimasse e quisesse estancar a lenta sangria d’agua, ela se aborrecia de vez e deixava-se ficar girando em voltas sem fim.
Danava-se tudo! Quando estava chateada assim, a gente tirava a mão de cima dela e ela voltava a vazar. Pra esse destempero da torneira somente um elástico bem forte ou uma tira de câmara de ar de bicicleta pra dar jeito.
A gente amarrava a torneira pra tirar o vazamento e ela ficava parecida com gente que tinha cachumba ; que botava um pano que passava pela fronte, dava a volta no queixo e terminava por ser amarrado num laço, em cima da cabeça.

A oficina de lavar roupa (Lembranças do quintal da minha avó!)

Eu não esqueço! Quem é da família e não é mais moço; o cabelo tem no todo ou numa parte, a cor do algodão, há de lembrar-se desse tempo! Como dia que amanhece a lembrança faz sol dentro de mim! O rio da memória é caudaloso e seus respingos quando alcança a cachoeira do tempo encharca de saudade o meu olhar! O tempo é um menino que brinca no quintal das minhas lembranças! No fio da teia da memória, o aumentado da casa ainda vai acontecer!
Ainda é a cozinha onde hoje é a sala de televisão! A porta da cozinha é de madeira e é tingida da cor do azul do céu. Ela se abre para o caramanchão. Quatro palanques fincados no chão, de altura e meia de um homem, dispostos num retângulo. Aos pés de cada um, uma videira foi plantada. O verde que mais tarde ia dar uvas, num enlace gentil e necessário, abraçou o poste para subir em direção ao alto e ir se esparramar sobre uma cama de arame, que docemente o meu avô teceu! Meu avô engenhou uma lavoura de palanques, plantas e arame para colher sombra o ano inteiro. Sob essa fruta gostosa que se aproveita para esconder o sol e amainar o calor dos dias de verão, o meu avô semeou o tanque; ao lado dele, edificou o quarador.
O quarador era uma prancha de madeira de lei onde uma das pontas ficava sustentada num poste de meio metro de altura e a outra ponta ia ao chão. Era ali que minha avó alvejava as roupas para o trabalho e as missas do domingo! O caramanchão, o tanque e o quarador!
Era ali a nossa oficina de lavar roupas!

Des-lucidez

Quero estar e vencer o tempo e a distância
Beber ventos e tempestades que se avizinham
Voar abismos e montanhas que me cercam
Entranhar ausências, saudades que me rondam
Nadar os mil e um rios que me convergem
Afrontar os mares que se horizontam
Descerrar de súbito as janelas dos olhos
Pavilhões de amor eternamente fechados

E num mergulho inequívoco
Na imensidão uterina da palavra
Cometer premeditadamente
Sem remorsos prematuros

Um verso de esperança na aridez do pensamento
E depois doar o peito ao farpado do arame
Então dilacerar com as mãs essa ferida viva
Até ser larga o bastante para ver pulsar
No compasso lento do relógio de parede
Desvairado e vermelho
Meu patético coração de homem

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Rio da memória

Os olhos fecho, nas águas muitas do rio da memória, vejo
Á deriva no leito uma infinidade de desejos insatisfeitos
Orgasmos fingidos se afogam abraçados a beijos alheios
Remam inconsoláveis os fantasmas de amores-perfeitos
Dependurados á margem da lâmina dágua de horrores
Samambaias abarrotadas de tristezas e avencas de dores

Nas águas muitas que correm o rio da memória
Navegam sem amarras o abandono e a solidão